Bola de Fogo


Não há muitos dias atrás, estava eu a conversar com alguns amigos sobre a linguagem. A roda era composta por pessoas de diversas áreas, o que tornou a prosa bem mais interessante, pois deu a conhecer, por exemplo, o que um sujeito que estuda Agronomia pensa da Língua Portuguesa e do seu uso no dia-a-dia.

Na ocasião discutíamos sobre o fato de haver ou não um “português correto”. É verdade que essa discussão é tão antiga quanto a própria palavra “antiga” ou “antigo”, provenientes do latim antiquus, o qual se refere a algo que existiu outrora ou que existe há bastante tempo. É verdade também que não importa o quão antiga seja uma coisa, pois sempre será possível tirar dali um bom ensinamento.

O pequeno “exercício” do parágrafo anterior tem lá suas utilidades. Há indivíduos que fazem questão de entornar um português impecável, salpicado aqui e ali com um pouco de Latim e Grego, nos espaços os mais diferenciados possível. Desses dizem que são eloqüentes, homens de cultura, capazes até, graças à incomum sabedoria acumulada, de descobrir o que tanto o Pensador de Rodin matutava, isso só de observar a posição da escultura.
Sem querer pôr à prova o conhecimento dessas pessoas, é necessário esclarecer que existe uma diferença entre saber e comunicar. Não é porque alguém se comunica melifluamente que ele ou ela sabe a fundo daquilo que está falando. Da mesma forma, não é porque alguém é um especialista em determinado assunto que ele ou ela irá fazer-se compreender com facilidade quando em uma comunicação, seja esta tomando uma com os amigos no bar seja numa conferência de cunho científico ou profissional.
Não é minha intenção aqui prolongar-me sobre o exposto no parágrafo precedente. Que fique a provocação e que ela suscite o que tiver de suscitar. Quero, isso sim, tratar das boas reflexões que um filme como “Bola de Fogo” (Ball of Fire) pode oferecer. O leitor pode até estranhar a gororoba discursiva que venho preparando. O que o Latim, a Língua Portuguesa, Rodin etc. têm a ver com um longa-metragem estadunidense de 1941? Bem, Rodin eu ainda não sei, mas os dois outros tópicos têm tudo a ver.
“Bola de Fogo” é uma produção curiosa. Lançado na década de 40, é um filme bem atual, e se ainda não foi filmado um remake, está mais do que na hora de fazê-lo. O roteiro é simples: um grupo de 8 intelectuais está reunido numa casa com o propósito de escrever uma enciclopédia. Há ali pensadores de diferentes campos do conhecimento: da Matemática, da Linguística, da Geografia etc. São homens dedicados a apenas duas coisas: pensar e escrever.
Todos são solteiros. Fora um estudioso da Botânica, viúvo, nenhum nunca teve um contato íntimo com as mulheres. Um entre os intelectuais, o linguísta, acaba conversando certo dia com o homem (Allen Jenkins) que trabalhava no carro do lixo. A conversa entre os dois é uma tragédia. O professor não entende algumas expressões que o senhor usa, assim como este franze a testa para algumas coisas que aquele diz. Bertram Potts (Gary Cooper), este é o nome do professor, fica extasiado com o modo de falar do outro, mesmo sem entender muito, e decide que vai sair às ruas para saber mais sobre a linguagem que as “pessoas comuns” usam. Os outros professores acham aquilo perigoso, mas Potts afirma que ele é um pesquisador e que, portanto, precisa ir a campo “descobrir” aquele modo de falar tão peculiar.
Fora de sua redoma, Potts acaba conversando com o entregador de jornais, com um garçom, com uma cantora popular. Tudo o que ele ouve lhe é novo. Aquelas pessoas não estavam preocupadas com as rígidas normas da gramática inglesa. Usavam, é claro, seus elementos básicos, mas acima de tudo estavam preocupadas em fazerem-se entender. Devido a isso, usavam muitas gírias. A gíria, que na bem aceita definição de um estudioso citado por Potts, é quando a língua tira o paletó e a gravata e vai trabalhar, é um elemento bastante recorrente no filme.
O linguista faz inúmeras anotações e fica cada vez mais envolvido com aquilo que está estudando. Seu envolvimento é também representado pela paixão que ele passa a nutrir pela cantora, cujo nome é Sugarpuss O’Shea (Barbara Stanwick). A cantora passa a morar na casa com os professores, os quais fazem de tudo para agradá-la. É impossível num determinado ponto da estória não ver alguma relação com o conto da Branca de Neve e os Sete Anões. Há mesmo uma passagem no filme em que um personagem diz que a diferença entre a estória e o conto é que os professores são 8 e não 7.
Potts acaba casando com Sugarpuss, sendo que esta representa a língua viva, aquela falada nas ruas, nas praças, nos cabarés, e aquele, a língua dos tratados, da gramática, aquela que é impecável em sua apresentação. Como uma comédia romântica, o filme conta ainda com vários acontecimentos cômicos, os quais, por motivo de praticidade, não vou expor aqui.
É lícito, porém, estabelecer a devida conexão entre o que foi escrito no início desse texto sobre a linguagem e o filme apresentado em linhas gerais há pouco. Sobre a discussão se há ou não um modo correto de se expressar, um olhar atento sobre “Bola de Fogo” mostra que o importante é fazer-se entender, isso respeitando as particularidades do momento e do lugar em questão. Potts foi desdenhado numa casa de shows porque usava uma linguagem inadequada para o local e para a situação. Quando ele passou a valorizar mais a vertente da língua usada nos ambientes que passou a frequentar, tanto foi capaz de entender o que as pessoas queriam expressar quanto fazer-se entendido por elas. Com base no que foi discutido é possível afirmar que não há um “português correto”; há sim uma língua viva, capaz de se adaptar às mais distintas situações, dando ao emissor e ao receptor o prazer que é comunicar-se.

 Charles dos Santos

Imagens do filme:





Buena Pregunta!

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